Resiliência

Resiliência: o que ninguém conta sobre quem ainda está atravessando

Quase tudo que se escreve sobre resiliência é escrito por quem já chegou do outro lado. Este texto é diferente: eu ainda estou no meio.

26 de agosto de 2026 · 6 min de leitura

A palavra resiliência virou enfeite. Aparece em currículo, em palestra motivacional, em post de segunda-feira. Costuma vir acompanhada de imagem de montanha e de alguém contando, do alto, como superou.

O problema desse tipo de texto não é o otimismo. É o lugar de onde ele é escrito. Quem já venceu conta a história de trás para frente, e nessa ordem tudo faz sentido: cada dificuldade parece um degrau, cada perda parece necessária. Só que ninguém vive nessa ordem.

Então vou fazer diferente. Eu ainda estou atravessando.

Onde eu estou agora

Em janeiro de 2023 sofri um acidente de carro. Em abril de 2024 fui preso. Saí em maio de 2025. Hoje ainda estou tentando me recuperar financeiramente e construindo coisas novas ao mesmo tempo, porque não posso parar.

São mais de três anos de travessia, e ela não acabou. Não escrevo isto do alto de nada, escrevo do meio. Tenho a sensação de que a virada está perto, e sei que essa sensação já me enganou antes.

Falo isso logo no começo porque muda o que este texto pode oferecer. Não vou te dizer que tudo vai ficar bem, porque eu mesmo ainda não sei da minha parte. Posso dizer o que descobri sobre continuar de pé, e isso eu sei por dentro.

Ninguém se sente resiliente enquanto atravessa

Esta é a distorção central do assunto.

Resiliência é um nome que se dá depois, de fora. As pessoas olham para alguém que atravessou e dizem: que resiliência. De dentro, não existe nada parecido com isso. De dentro existe cansaço, medo, vergonha, contas, noites mal dormidas e uma sensação persistente de que você está apenas aguentando, não superando.

Se você está esperando se sentir forte para concluir que está sendo resiliente, vai esperar para sempre. A força não aparece como sentimento. Ela aparece no registro dos dias em que você fez o que precisava sem estar com vontade nenhuma.

Ou seja: você provavelmente já está sendo resiliente e não está percebendo, porque está confundindo resiliência com entusiasmo.

Três mentiras confortáveis sobre resiliência

Que é uma qualidade que a pessoa tem

Fala-se de resiliência como se fosse traço de personalidade: fulano é resiliente, beltrano não. Isso é conveniente e falso, porque transforma quem não aguentou em alguém defeituoso.

O que existe são condições. A mesma pessoa aguenta uma queda aos trinta e não aguenta aos cinquenta, ou aguenta com apoio e desmorona sozinha. Resiliência não é o que você é. É o que acontece quando circunstância, vínculo e decisão se encontram.

Que é atitude mental

Pensamento positivo ajuda pouco quando o problema é concreto. Você não sai de uma dívida com afirmação, não recupera uma reputação com mentalidade, não reconstrói uma vida com frase de efeito.

O que muda a situação é ação repetida, em geral chata, em geral pequena, em geral sem nenhum resultado visível nas primeiras semanas.

Que é solitária

Essa é a mais cara de todas, porque leva quem está sofrendo a se isolar achando que precisa dar conta sozinho.

Não conheço uma única história real de reconstrução que tenha acontecido de forma isolada. Existe sempre alguém: uma pessoa que acreditou, uma família que esperou, um amigo que ligou, alguém que não desistiu antes de você.

O que realmente me segurou

Vou responder isso sem embelezar, porque a resposta bonita seria mentira.

Não foi propósito. Não foi fé em mim mesmo, que estava em pedaços. Não foi disciplina, que veio muito depois. Não foi acreditar que ia dar certo, porque em vários momentos eu não acreditava.

Foram minha esposa e meus filhos. Só isso.

A ideia de decepcioná-los era mais insuportável do que qualquer coisa que eu estivesse vivendo. Não era um pensamento nobre, era quase físico. Nos dias em que eu não tinha nenhum motivo próprio para levantar, esse motivo servia.

Digo isso porque muita gente se cobra por não ter uma razão grandiosa. Você não precisa de uma. Precisa de uma razão que funcione às seis da manhã de um dia ruim. Pode ser um filho. Pode ser sua mãe. Pode ser alguém que apostou em você e que você não quer fazer passar vergonha.

Resiliência raramente nasce de amor-próprio. Muitas vezes nasce de responsabilidade por alguém.

O que aprendi de dentro da travessia

Não é linear, e isso não é fracasso

Você melhora três semanas e afunda numa tarde. Isso não apaga as três semanas. A conta que importa é a do mês, não a do dia ruim.

O corpo cobra antes da cabeça

Sono, alimentação e movimento parecem detalhes irrelevantes diante de um problema grande. Não são. Ninguém toma decisão decente exausto, e travessia longa é feita de decisões, uma atrás da outra.

Você não precisa acreditar, só precisa continuar

Fé em dias bons é fácil. Em dias ruins, o que sustenta não é acreditar, é cumprir o combinado com você mesmo mesmo sem acreditar. A convicção volta depois, e volta porque você continuou, não o contrário.

Tem custo, e o custo é real

Quase ninguém diz isso. Atravessar cobra caro: saúde, tempo, relações, dinheiro, energia que não volta. Reconhecer o preço não é fraqueza, é o que permite não gastar mais do que você tem.

A parte mais difícil pode vir depois

Existe uma expectativa de que o pior é o fundo do poço. Na minha experiência, a saída também é dura. Lá embaixo a vida tem forma imposta e a tarefa é uma só: aguentar. Do lado de fora, tudo volta a depender de você, e a lista de consequências está esperando.

Se você está no meio agora

Não vou te dizer que vai valer a pena, porque não sei da sua história e não gosto de prometer o que não posso garantir.

O que posso dizer é o seguinte. O fato de você estar procurando sobre resiliência, hoje, cansado, provavelmente já é a prova do que você duvida ter. Ninguém que desistiu de verdade pesquisa como continuar.

Escolha alguém por quem valha a pena continuar, mesmo que não seja você mesmo por enquanto. Reduza o dia ao que dá para cumprir. Não decida nada importante à noite. E não conte esse período sozinho, porque essa é a parte que quebra as pessoas, muito mais do que o tamanho do problema.

Um dia alguém vai olhar para você e dizer que você foi resiliente. Você provavelmente vai achar estranho, porque vai lembrar que, por dentro, era só medo e obrigação.

É assim mesmo. Sempre foi.

Perguntas frequentes

O que é resiliência de verdade?

É a capacidade de continuar funcionando e se reorganizar durante e depois de uma adversidade. Não é ausência de dor, não é otimismo e não é traço fixo de personalidade: depende de condições, de apoio e de repetição de pequenas ações, não de força interior.

Resiliência é algo com que se nasce ou se aprende?

Aprende-se, e depende muito do contexto. A mesma pessoa responde de formas diferentes em fases diferentes da vida, conforme o apoio que tem, o estado do corpo e o quanto já vinha sendo exigida antes da queda.

Como ser resiliente quando não se tem mais forças?

Reduza a escala do dia até algo que você consiga cumprir, cuide primeiro do sono e da alimentação, evite decisões importantes nos piores momentos e escolha uma razão concreta para continuar, mesmo que ela seja outra pessoa e não você.

Quanto tempo dura uma travessia dessas?

Mais do que se espera, e raramente termina em uma data limpa. Costuma terminar aos poucos, com a pessoa percebendo tarde que já não vive mais em modo de sobrevivência.

Isso substitui terapia?

Não. Se houver sofrimento intenso, desesperança persistente ou pensamentos de morte, procure ajuda profissional imediatamente. No Brasil, o CVV atende de graça pelo telefone 188, 24 horas por dia.

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